Torces para o clube ou para o time?
Por Higor Maffei Bellini
Esta pergunta, à primeira vista simples, pode ser a chave para compreender uma mudança profunda no futebol moderno: a ascensão das SAFs (Sociedades Anônimas do Futebol) ou das SADs (Sociedades Anônimas Desportivas) e a crescente separação entre o "clube" e o "time".
Afinal, quando dizemos que torcemos para o clube, estamos a referir-nos a algo muito maior do que apenas os onze jogadores que entram em campo. Clube é estrutura, é história, é piscina, é salão de festas, é o futsal, o basquete, o voleibol. É a lanchonete onde os sócios se reúnem, é o campo onde crianças aprendem a amar o esporte. É o tecido vivo de uma comunidade.
Já o time é o espetáculo de fim de semana. É a emoção dos gols, as vitórias e derrotas, o campeonato. Para muitos, o que importa são as cores, o escudo e os resultados do time, sem querer saber do clube. Quem comanda o time, onde ele joga e se é uma empresa ou um grupo estrangeiro pouco importa para aqueles que apenas assistem às partidas. Desde que ganhe.
Este distanciamento entre clube e time pode ser precisamente o que permite a criação das SAFs: a venda de uma parte do clube, o futebol, a investidores externos, muitas vezes alheios à história, cultura e identidade da instituição.
E o que é mais preocupante: essa venda raramente reverte em benefícios concretos para o clube social. Quantos clubes que venderam a sua SAF puderam reformar a sede, criar novas modalidades ou melhorar os serviços aos sócios?
Torcer para o clube é esperar que o ginásio esteja em boas condições, que a piscina seja limpa, que haja atividades para os filhos e netos, que o clube seja um espaço de convivência e pertença. É querer que o clube vença não só no futebol, mas em todas as frentes.
Torcer apenas para o time é limitar-se ao futebol, à tabela de classificação nos campeonatos, ao resultado do domingo. Muitas vezes sem saber sequer quem fundou aquele clube, ou o que representa para a sua comunidade.
É por isso que esta reflexão é tão urgente.
Porque há quem continue a torcer por um clube que já não tem time, e há quem torça por um time que já não tem clube.
E, no fundo, talvez isso explique o motivo de tantos defenderem que os clubes deixem de investir noutras modalidades ou atividades sociais para focar no futebol, no seu negócio principal. Para alguns, o clube devia ser apenas o time. Mas para quem cresceu a viver o clube no seu todo, esta visão é redutora e até dolorosa.
Infelizmente, com dor no coração, entendo que para alguns a criatura, no caso o time, se tornou maior que o criador, o clube social. Razão pela qual muitos defendem acabar com o criador, para que a criatura siga em frente, sem ter de ajudar a manter esse clube.
Eu não entendo que seja o correto. Não creio que, para o time existir, de maneira competitiva, seja necessário o clube ser abandonado ou extinto. Pois, se isso ocorrer, torcerão para uma empresa, que, como tal, visa apenas ao lucro financeiro e contábil e não ao título.
Sendo a conquista do campeonato apenas uma forma de alavancar o lucro pela exposição de mídia, pelo recebimento do prêmio, dos bônus dos patrocinadores, ou seja, um meio para atingir o lucro e não o objetivo principal.