Por Higor Maffei Bellini
A FIFA precisa, com urgência, compreender que o futebol mundial não vive uma realidade financeira homogênea e, sobretudo, que ela não é europeia.
A lógica econômica que sustenta clubes, ligas e torcedores na Europa simplesmente não se replica no restante do planeta. Ainda assim, a entidade máxima do futebol insiste em organizar o calendário global como se todos vivessem sob o mesmo câmbio, os mesmos salários e as mesmas condições de deslocamento.
Organizar duas competições mundiais de clubes no mesmo ano já é, por si só, questionável, lembrando que os jogadores e times europeus reclamaram de ficarem sem férias para participar do que aconteceu no meio do ano.
Fazer isso em países distintos, em continentes diferentes, com poucos meses de intervalo, beira o completo descolamento da realidade. Primeiro, um Mundial de Clubes nos Estados Unidos, no meio do ano. Em seguida, outro torneio no Catar. E a expectativa tácita parece ser a de que o torcedor acompanhe o seu clube em ambos.
Para o torcedor sul-americano, isso é simplesmente impossível. No caso brasileiro, a situação se agrava ainda mais. A final da Libertadores foi disputada há menos de 14 dias, em Lima. O custo para sair do Brasil e ir ao Peru já foi elevadíssimo, com passagens inflacionadas, hospedagem cara e gastos que ultrapassam facilmente o orçamento médio do torcedor.
Exigir que esse mesmo torcedor tenha disponibilidade financeira e de tempo para viajar ao Catar menos de um mês depois é ignorar um dado básico: ele precisa trabalhar para pagar suas contas.
O torcedor brasileiro não pode se dar ao luxo de passar um mês em viagens internacionais para ver seu time jogar.
E não por falta de paixão, mas por falta de condições materiais.
O câmbio desfavorável faz com que qualquer deslocamento internacional custe, na prática, cinco ou seis vezes mais do que para um europeu. Uma única partida no estádio pode significar um gasto superior a um salário mínimo.
Talvez seja hora de a FIFA ser honesta.
Esses mundiais de clubes não são pensados para que o torcedor do clube acompanhe o time fora de seu país. São produtos voltados à venda de direitos de transmissão, à ocupação de janelas comerciais e à expansão de mercados. O estádio, com a presença de torcedores, nesse contexto, torna-se quase um detalhe.
Assumir isso publicamente seria um primeiro passo. Porque fingir que o torcedor global pode consumir futebol como o europeu não fortalece o esporte, apenas evidencia o abismo entre quem organiza o espetáculo e quem, historicamente, sempre esteve nas arquibancadas.