Por Higor Maffei Bellini
No mundo do futebol, ou de qualquer outro esporte, é natural que jogadores, técnicos e equipes estejam constantemente sob análise e crítica da imprensa tradicional e dos chamados influenciadores digitais.
A crítica jornalística, quando feita com responsabilidade e baseada em fatos, é não apenas legítima, mas essencial para o debate público, dando elementos para os torcedores discutirem nos bares ou nos grupos de trocas de mensagens. No entanto, há uma linha tênue entre criticar o desempenho de um atleta e atacar sua dignidade como ser humano. Quando essa linha é ultrapassada, entramos no campo do dano moral, que deverá ser reparado por quem fez o comentário e pelo veículo de imprensa que é seu empregador.
A crítica esportiva deve se limitar ao que acontece dentro das quatro linhas: aspectos técnicos, táticos, físicos e comportamentais que influenciam o jogo. O problema começa quando a análise dá lugar à zombaria, ao julgamento pessoal ou a comentários maliciosos.
Com o crescimento das redes sociais, influenciadores e até jornalistas passaram a buscar engajamento com declarações polêmicas, muitas vezes às custas da imagem de atletas. Essa busca por likes e repercussão não pode servir de justificativa para afirmações ofensivas ou desrespeitosas.
Um exemplo recorrente é quando alguém afirma que determinado jogador “deveria se aposentar”. Essa frase, embora pareça uma opinião, pode carregar preconceito etário (etarismo) e induzir a torcida a ver o atleta como alguém que está "roubando" o clube, simplesmente por continuar a jogar e receber salário.
Quando isso ocorre, a crítica deixa de ser sobre desempenho e se torna uma forma de exposição pública negativa, o que pode gerar sofrimento emocional e afetar a imagem do profissional.
Além disso, comentários sobre a vida pessoal do atleta, sua saúde, família ou histórico profissional, quando não têm ligação direta com o desempenho em campo, também ultrapassam o limite do aceitável. Todos esses fatores podem configurar dano moral, pois atacam a honra, a imagem e a dignidade do jogador.
A nova geração de jornalistas e criadores de conteúdo precisa entender que a liberdade de expressão não dá o direito de ofender.
Análises sobre o desempenho de um atleta devem ser feitas com responsabilidade, empatia e respeito, mesmo que o jornalista, enquanto torcedor daquela equipe, não goste do jogador.
Opinar sobre a forma física, a idade ou a história profissional de um jogador deve ser feito com critério e sempre com base no contexto esportivo, nunca como forma de ridicularização, dizendo que o atleta não consegue correr, que tal lance era tão fácil de ser defendido que, se aconteceu, o atleta deveria parar, ou que até a avó do jornalista defendia.
Por trás de cada atleta existe uma pessoa, com sentimentos, família, carreira e direitos. A crítica faz parte do esporte, mas o respeito é essencial para manter um ambiente saudável dentro e fora dos campos.
A busca por engajamento ou audiência não pode servir para ridicularizar o atleta, pois os memes também são passíveis de ofensa ao esportista.
E o atleta que se sentir ofendido pode buscar a reparação do dano moral na justiça civil, pois nada, absolutamente nada, é mais importante que a honra e a digna imagem de um atleta, pois esse atleta é um ser humano