Por Higor Maffei Bellini
No Brasil, as palavras no esporte, especialmente no futebol, parecem viver num campo semântico próprio, oblíquo, duvidoso e frequentemente desconectado da sua origem.
O fenômeno não é meramente linguístico, mas estrutural e cultural. As palavras aqui são usadas como quem dribla: com intenções escondidas, direções inesperadas e resultados incertos, sem muita ligação com o contexto originalmente empregado.
Tomemos como exemplo o termo liga. No vocabulário global do futebol, liga refere-se a um grupo de clubes que se organiza para gerir um campeonato de forma autônoma, fora da tutela direta das federações nacionais como ocorre com a Premier League inglesa ou a La Liga espanhola.
Estas entidades cuidam exclusivamente das suas competições, enquanto a federação se ocupa da seleção nacional. Simples. Claro. Funcional.
Já no Brasil, porém, o termo liga foi apropriado, pelo desconhecimento técnico, para não pensar que se trata de de forma oportunista, de desvirtua mente do termo.
Longe de designar uma entidade organizada e estruturada com funções definidas, passou a ser usada como uma espécie de slogan para ações comerciais nomeadamente, a venda coletiva de direitos de transmissão.
Como no passado foii o caso do "clube dos 13", um consórcio dos mais populares clubes brasileiros extinto por interesses individuais, de clubes que pensavam seraos lucrativo negociar sozinhos
Desde então, os clubes passaram a negociar isoladamente, culminando na criação da chamada Lei do Mandante, que autoriza apenas o clube mandante a negociar a transmissão do jogo. O que era para ser um avanço coletivo virou fragmentação institucional.
A confusão semântica não para por aí. Expressões como campeonato nacional e torneio regional também ganham contornos próprios.
Neste cenário, o vocabulário do futebol brasileiro serve mais para maquilhar intenções do que para explicitar estruturas. Usa-se liga sem liga, federado sem federação eficaz, e até profissionalismo quando se mantém práticas amadoras.
O resultado? Torcedores confundidos, dirigentes oportunistas e um sistema que se comunica em código sempre oblíquo, sempre duvidoso.