Os robôs nunca dormem e mudam o trabalho
Por Higor Maffei Bellini
Num mundo em que a eficiência é cada vez mais medida em velocidade, custo e tempo de atividade, uma empresa chinesa está a dar passos largos para transformar o chão de fábrica, onde os trabalhos são realizados basicamente usando força física, com pouco ou nenhuma utilização de pensamento crítico, dentro de trabalho monótono e repetitivo: a UBTech Robotics.
Com o seu robô humanoide Walker S2, a UBTech apresenta uma das mais audazes apostas da robótica industrial recente, um robô que, literalmente, pode trabalhar sem pausa, graças a um sistema que lhe permite trocar autonomamente a bateria em poucos minutos, sem intervenção humana. Ou seja, o fator humano foi retirado da operação.
Este robô está concebido para tarefas típicas de linha de produção: manipulação, movimentação de peças, montagem, inspeção, repetição constante. A promessa: funcionamento contínuo, 24 horas por dia, sem os limites naturais da força de trabalho humana.
A primeira ameaça real ao trabalho humano?
Ao contrário das revoluções industriais anteriores, como a que trouxe a força do vapor, que traziam máquinas e equipamentos para aumentar a produtividade humana, mas ainda dependiam dos trabalhadores para operar e supervisionar, esta nova vaga pode representar a primeira ameaça concreta e direta ao trabalho humano.
Agora, com robôs como o Walker S2, o ser humano deixa de ser necessário para fazer o trabalho acontecer. A máquina não só executa as tarefas com precisão e repetição contínua, como também gere a sua própria autonomia, tornando-se dispensável o operador humano.
Este passo poderá custar milhares ou até mesmo milhões de empregos, especialmente entre os trabalhadores menos qualificados, que têm apenas a sua força física para trocar por um salário ao fim do mês.
Se o robô pode fazer mais, melhor e sem descanso as tarefas diárias de uma linha de produção, que lugar resta ao operário humano comum, que se cansa, que precisa parar de trabalhar para recuperar as forças física e mental?
O papel do Estado e da sociedade
Esta nova realidade, que chegou mais rápido do que pensava, levanta uma responsabilidade acrescida para os governos: criar mecanismos que reocupem o ser humano com outras formas de trabalho ou contributo social.
Num mundo com robôs humanoides a operar linhas de montagem, carros autónomos a substituir motoristas e inteligências artificiais a tomar decisões sem consulta humana, cada pessoa pode começar a ver o seu papel tradicional na economia a esvanecer-se.
Torna-se urgente refletir: (i) que empregos restarão? (ii) Como se distribui o valor criado por robôs? (Iil) Que formação deve ser promovida? (IV) Como garantir dignidade e ocupação para todos?
Conclusão
A era em que “o robô nunca dorme” já chegou pelo menos na China, mas logo chegará em todos os países com maior ou menor velocidade. A adoção do Walker S2 pela UBTech marca um ponto de viragem: automação total, sem mediação humana.
O impacto não será apenas económico. Será também social, político e existencial.
Esta é a primeira revolução em que o ser humano pode ser realmente tornado irrelevante dentro do sistema produtivo e cabe-nos a todos pensar o que isso significa.
E cuidar para que o ser humano não se torne obsoleto nesse novo mundo, pois, se o fator humano for retirado da equação, estaremos vivendo em um novo lugar, onde tudo precisará ser revisto e aprendido, pois o mundo que conhecemos terá deixado de existir.
Todo esse tempo livre que as máquinas criarão para os humanos, que pode ser utilizado, para acompanhar os esportes, de nada adianta se o humano, não tiver renda, para poder consumir os eventos esportivos.