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Direito, gestão e esportes

Direito, gestão e esportes

Por Higor Maffei Bellini 

A crescente indignação dos torcedores, de diversos países, com os preços dos ingressos para a Copa do Mundo da FIFA 2026 é apenas mais um reflexo de um problema maior e persistente. Trata-se da elitização do futebol, que vem acontecendo em ritmo cada vez mais acelerado.

Como sempre afirmamos, a FIFA, ou qualquer outra entidade desportiva, precisa entender que quem faz o espetáculo acontecer é o público presente no estádio. Não aquele que acompanha pela televisão ou serviço de streaming. Eles são tão torcedores quanto os que foram às catracas de acesso ao estádio, mas que não se fazem presentes, não cantando e vibrando.  Não dando alma ao confronto das equipes.

Sem a presença do torcedor no estádio, o futebol perde sua alma, sua essência e seu propósito, que, também deve ser permitir que o trabalhador se desconecte de suas obrigações profissionais e se divirta.

Repararam que os jogos tradicionalmente eram marcados para as folgas dos trabalhadores da indústria? Isso mudou com a internacionalização que a televisão provocou, fazendo com que sejam marcados jogos para atender consumidores que estão em outros fusos horários.

As reclamações sobre os elevados valores das entradas para as partidas da Copa do Mundo de Seleções são válidas, são legítimas e vêm de todas as partes do mundo. 

Os valores cobrados, que em alguns casos ultrapassam os 4 mil dólares para um único bilhete, são inacessíveis para o trabalhador médio, aquele que durante décadas sustentou a paixão pelo futebol. 

E isso sem contar os custos adicionais: deslocamentos internacionais, hospedagem, alimentação e transporte interno nos três países-sede: Estados Unidos, Canadá e México.

Mesmo os torcedores que já vivem nesses países não estão isentos dessas dificuldades. Como a competição será realizada em três sedes diferentes, é bastante provável que o torcedor tenha de se deslocar entre cidades e países para acompanhar os jogos da sua seleção, o que multiplica os gastos e as barreiras logísticas.

Talvez, e apenas talvez, estejamos a ver um processo que muitos já sentem há anos: o futebol deixou de ser feito para o trabalhador.

O desporto, que durante décadas, para não usar séculos, foi o reflexo da cultura popular e das lutas sociais, parece estar cada vez mais voltado para as elites financeiras. Com preços proibitivos, o torcedor comum não consegue mais marcar presença nem nas arquibancadas do seu clube, quanto mais numa Copa do Mundo.

É possível que, dentro de uma ou duas gerações, as entidades desportivas venham a pagar um preço alto por esse distanciamento da sua base de apoio. A paixão que move o futebol vem da rua, da massa, da bancada popular e isso não pode ser esquecido. Mas vem sendo, infelizmente.

Um evento mundial como a Copa do Mundo deve garantir um mix de experiências e diferentes perfis de torcedores, mas esse equilíbrio não pode ser construído apenas com base na capacidade financeira dos mais abastados. 

Por isso os valores deveriam ser revistos, para baixo e assim permitir que aqueles com menores condições financeiras possam comprar o seu ingresso, irem aos jogos comerem seu lanche no estádio e se divertirem. Pois os mais abastados já estão garantidos.

O futebol precisa continuar a ser de todos e, sobretudo, para todos.

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