Devem os clubes comprar os imóveis ao seu redor?
Por Higor Maffei Bellini
Os clubes esportivos, enquanto pessoas jurídicas, diferentemente das pessoas físicas, não enfrentam a realidade da morte ou da sucessão hereditária. Isso significa que, quando um clube adquire um imóvel próximo ao seu estádio, centro de treinamento ou sede social, esse bem tende a sair definitivamente do mercado, só retornando em situações excepcionais, como a extinção da entidade, a substituição por uma estrutura maior ou a dação em pagamento para quitação de dívidas.
Trata-se, portanto, de uma decisão que ultrapassa gerações e impacta diretamente o espaço urbano ao redor do clube.
Sob a ótica patrimonial, a compra desses imóveis pode atender a diferentes finalidades.
A mais evidente é a expansão física: criação de novas áreas de treinamento, ampliação de estacionamento, centros médicos, administrativos ou até de uso comercial.
Outra hipótese é a aquisição puramente como investimento, aproveitando oportunidades de mercado.
Some-se a isso a possibilidade de recebimento de imóveis por doação de sócios, torcedores ou dirigentes, o que também amplia o patrimônio imobiliário do clube sem desembolso direto.
A grande questão, contudo, reside na lógica de valorização e desvalorização desses bens ao longo do tempo.
Em um primeiro momento, obras de ampliação de estádios, centros de treinamento ou grandes intervenções urbanas podem gerar depreciação temporária dos imóveis do entorno: barulho, trânsito, restrições de acesso e perda momentânea de atratividade residencial ou comercial. Esse fator, muitas vezes, reduz os preços e abre uma janela estratégica para aquisição.
No médio e no longo prazo, porém, a tendência costuma ser de forte valorização, impulsionada exatamente pelas melhorias estruturais e pelas obras públicas destinadas a atender às demandas do clube e de sua torcida: novas vias de acesso, transporte público, reurbanização, iluminação, segurança e comércio.
Nesse contexto, o clube passa a ser também um agente indutor de valorização imobiliária, muitas vezes detentor de informações privilegiadas sobre projetos futuros, prazos e impactos, o que lhe confere uma posição estratégica nas negociações.
Por outro lado, quando o clube compra extensivamente os imóveis do entorno, ocorre a redução significativa da oferta disponível na região.
Isso altera a dinâmica do bairro, impacta moradores, encarece aluguéis e modifica o perfil socioeconômico da área. O clube deixa de ser apenas usuário daquele espaço urbano para se tornar um verdadeiro proprietário do território.
Assim, a compra de imóveis ao redor de suas estruturas não é apenas uma decisão esportiva ou administrativa, mas uma escolha patrimonial, econômica e urbanística, com reflexos duradouros para o clube e para a cidade.
O desafio está em equilibrar estratégia, transparência e responsabilidade social.