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Direito, gestão e esportes

Direito, gestão e esportes

Por Higor Maffei Bellini 

 

No mundo do futebol, ou de qualquer outro esporte, é natural que jogadores, técnicos e equipes estejam constantemente sob análise e crítica da imprensa tradicional e dos chamados influenciadores digitais. 

A crítica jornalística, quando feita com responsabilidade e baseada em fatos, é não apenas legítima, mas essencial para o debate público, dando elementos para os torcedores discutirem nos bares ou nos grupos de trocas de mensagens. No entanto, há uma linha tênue entre criticar o desempenho de um atleta e atacar sua dignidade como ser humano. Quando essa linha é ultrapassada, entramos no campo do dano moral, que deverá ser reparado por quem fez o comentário e pelo veículo de imprensa que é seu empregador.

A crítica esportiva deve se limitar ao que acontece dentro das quatro linhas: aspectos técnicos, táticos, físicos e comportamentais que influenciam o jogo. O problema começa quando a análise dá lugar à zombaria, ao julgamento pessoal ou a comentários maliciosos.

Com o crescimento das redes sociais, influenciadores e até jornalistas passaram a buscar engajamento com declarações polêmicas, muitas vezes às custas da imagem de atletas. Essa busca por likes e repercussão não pode servir de justificativa para afirmações ofensivas ou desrespeitosas.

Um exemplo recorrente é quando alguém afirma que determinado jogador “deveria se aposentar”. Essa frase, embora pareça uma opinião, pode carregar preconceito etário (etarismo) e induzir a torcida a ver o atleta como alguém que está "roubando" o clube, simplesmente por continuar a jogar e receber salário.

Quando isso ocorre, a crítica deixa de ser sobre desempenho e se torna uma forma de exposição pública negativa, o que pode gerar sofrimento emocional e afetar a imagem do profissional.

Além disso, comentários sobre a vida pessoal do atleta, sua saúde, família ou histórico profissional, quando não têm ligação direta com o desempenho em campo, também ultrapassam o limite do aceitável. Todos esses fatores podem configurar dano moral, pois atacam a honra, a imagem e a dignidade do jogador.

A nova geração de jornalistas e criadores de conteúdo precisa entender que a liberdade de expressão não dá o direito de ofender. 

Análises sobre o desempenho de um atleta devem ser feitas com responsabilidade, empatia e respeito, mesmo que o jornalista, enquanto torcedor daquela equipe, não goste do jogador.

Opinar sobre a forma física, a idade ou a história profissional de um jogador deve ser feito com critério e sempre com base no contexto esportivo, nunca como forma de ridicularização, dizendo que o atleta não consegue correr, que tal lance era tão fácil de ser defendido que, se aconteceu, o atleta deveria parar, ou que até a avó do jornalista defendia.

Por trás de cada atleta existe uma pessoa, com sentimentos, família, carreira e direitos. A crítica faz parte do esporte, mas o respeito é essencial para manter um ambiente saudável dentro e fora dos campos.

A busca por engajamento ou audiência não pode servir para ridicularizar o atleta, pois os memes também são passíveis de ofensa ao esportista.

E o atleta que se sentir ofendido pode buscar a reparação do dano moral na justiça civil, pois nada, absolutamente nada, é mais importante que a honra e a digna imagem de um atleta, pois esse atleta é um ser humano

Por Higor Maffei Bellini 

A imagem de um atleta, incluindo sua voz, nome, apelido e qualquer forma de representação gráfica, é um direito personalíssimo, protegido pela legislação brasileira. 

O artigo 5º, inciso X, da Constituição Federal garante a inviolabilidade da imagem das pessoas. Esse direito é reforçado pelo Código Civil, que veda o uso da imagem de uma pessoa, independentemente de sua profissão, sem autorização do titular, salvo exceções legais, como interesse público.

No âmbito esportivo, é comum que atletas celebrem com seus clubes dois contratos distintos: um contrato de trabalho desportivo (com natureza trabalhista) e um contrato de licenciamento de imagem (com natureza civil).

Esse segundo contrato, previsto na Lei Pelé, permite que até 50% da remuneração total do atleta sejam pagos a título de direito de imagem, desde que haja contrato específico e separado. Isso significa que sobre essa parcela não incidem encargos trabalhistas como férias, 13º salário e FGTS, uma alternativa atrativa para clubes e atletas, mas que precisa respeitar os limites legais para evitar fraudes trabalhistas.

É com base nesse contrato civil de licenciamento de imagem que o clube adquire autorização para utilizar a imagem do atleta em campanhas publicitárias, materiais promocionais, transmissões de jogos, figurinhas e até videogames, desde que o atleta esteja representado com o uniforme e identidade do clube.

No entanto, esse contrato entre o atleta e o clube não autoriza o uso da imagem do atleta vestindo o uniforme da seleção brasileira. Isso porque a cessão de imagem ao clube é limitada ao contexto institucional do clube contratante. A seleção brasileira, por sua vez, é gerida pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), entidade autônoma, que não é parte no contrato entre clube e atleta.

Logo, qualquer uso da imagem do atleta com o uniforme da seleção exige uma nova autorização específica, a ser tratada diretamente com o atleta ou com quem detenha os direitos sobre essa imagem em contexto de seleção nacional.

 A tentativa de uso não autorizado pode configurar violação de direito de imagem e ensejar responsabilização civil, nos termos do Código Civil e da Lei Geral do Esporte, que reforça o caráter personalíssimo da imagem do atleta.

Gerando a quem o utilizar sem fazer esse novo contrato exclusivo para a utilização vestindo as cores da seleção brasileira, o dever de indenização do dano causado pelo uso sem a autorização do atleta ou da empresa que detém o direito de uso.

O uso da imagem de atletas é um tema sensível e tecnicamente complexo, que envolve limites contratuais e proteção legal. 

Enquanto os clubes têm certa margem para explorar comercialmente a imagem dos seus atletas, essa autorização não se estende automaticamente a contextos externos ao clube, como é o caso da seleção brasileira, até porque essa é uma outra empresa, sem relação direta com o clube. 

 Empresas, patrocinadores e desenvolvedores de conteúdo que desejam utilizar imagens de jogadores com a camisa da seleção devem buscar acordos próprios com os atletas ou seus representantes legais

Por Higor Maffei Bellini 

 

Hoje, 25 de dezembro de 2025, acordei e vim ver as notícias sobre o Palmeiras, time de futebol, tanto masculino como feminino, para o qual eu torço, e me dei conta de que não tem imagem dos jogadores; não tenho como não ser impactado pelos patrocinadores. 

E assim me veio a ideia para o texto de hoje.

Investir em patrocínio desportivo não é apenas uma jogada de marketing, não resisti ao trocadilho, é uma estratégia poderosa de aproximação com o público. 

Seja como fornecedor de equipamentos, bolas, chuteiras ou o uniforme estampando o logótipo, ou dando nome a um estádio, a marca patrocinadora ganha algo raro no mundo da publicidade: atenção total do espectador.

Ao contrário dos anúncios na internet, que podem ser ignorados com um clique, os patrocínios em eventos desportivos são experimentados em tempo real, num momento de envolvimento emocional profundo. O torcedor não salta o “anúncio”, ele veste-o, grita-o, celebra com ele.

Quando uma marca se associa a um clube ou competição, passa a fazer parte da identidade do torcedor. O logótipo na camisa ou nas placas do estádio não é só publicidade, é, sim, um símbolo de apoio àquele clube. E, por isso mesmo, é percebido de forma positiva e até afetiva pelos torcedores.

Essa ligação emocional transforma o torcedor num consumidor fiel de quem patrocina o seu clube. Ele compra produtos da marca para apoiar o seu time. Ele associa o nome da empresa aos momentos felizes do seu time: vitórias, gols, títulos. E isso tem um valor imenso: não é só exposição, é envolvimento.

Além disso, o alcance do desporto vai muito além das quatro linhas. Jogos são transmitidos na televisão, nas redes sociais, em jornais e em podcasts. Cada repetição, cada fotografia, cada meme com a camiseta do time é mais um momento de visibilidade para a marca.

É por isso que, apesar dos altos valores envolvidos, o patrocínio desportivo continua a crescer.

 Marcas reconhecem que esta forma de publicidade não pode ser ignorada nem bloqueada, e é justamente por isso que é tão eficaz. Ao contrário do tráfego pago na internet, o patrocínio desportivo tem uma audiência garantida, emocionalmente conectada e disposta a consumir. Que não deixa de ver o anúncio simplesmente pulando ou assinando os serviços para garantir que não tenha publicidade vinculada

Por Higor Maffei Bellini

 

A final da Copa do Brasil, que acontece agora enquanto escrevo esse texto, em 21 de dezembro de 2025, entre Vasco da Gama e Corinthians, promete emoções dentro das quatro linhas, mas é fora delas que está o verdadeiro embate.

 

 Este confronto representa mais do que dois clubes históricos do futebol brasileiro. Ele expõe, de forma clara, o choque entre dois modelos de gestão diametralmente opostos.

 

De um lado, o Vasco. Uma administração que, segundo as declarações do seu presidente e da assessoria de imprensa, procura agir com responsabilidade financeira. Um clube que não se lança no mercado sem ter garantias de que poderá cumprir com os salários e encargos dos jogadores contratados. Para essa direção, o resultado desportivo é importante, mas não pode vir ao custo de novas dívidas. O título é desejado, sim, mas não à custa da estabilidade financeira.

 

Do outro lado, o Corinthians. Notícias recorrentes apontam para salários em atraso, dívidas acumuladas e contratações feitas mesmo sem garantias de pagamento. O foco é claro: conquistar mais um título, ampliar a galeria de troféus e manter-se em evidência, mesmo que o preço seja adiar, mais uma vez, o equilíbrio das contas.

 

Ambas as gestões sabem que vencer a Copa do Brasil garante uma vaga na Taça Libertadores de 2026, visibilidade internacional e um prêmio financeiro milionário. Ou seja, o risco, para alguns, justifica-se. É a lógica do "apostar alto para colher depois", mesmo que esse depois nunca chegue.

 

Mas a grande questão que deixamos aqui não é determinar quem está certo ou errado. A reflexão é mais profunda: desde quando o tão falado fair play financeiro passou a ser importante no futebol brasileiro? Em que momento pagar as contas em dia passou a ser, para alguns torcedores, mais importante do que conquistar títulos?

 

A verdade é que dificilmente se ouve um torcedor no bar, entre uma cerveja e um petisco, com orgulho, dizer que o seu clube pagou os salários ou as dívidas do mês em dia. 

 

No imaginário coletivo dos torcedores de qualquer clube, o que conta é o gol, o troféu, a volta olímpica, ou seja, brincar e tirar onda com o rival que não ganhou nada naquele ano, mas que tem a sua gestão pagando em dia seus salários ou impostos. 

 

Afinal, vivemos num país em que entrar e sair dos serviços de proteção ao crédito, por não ter condições de pagar em dia as obrigações financeiras do mês, é quase parte da rotina. Os grandes devedores muitas vezes são tratados com mais condescendência do que os pequenos, pelos bancos, pelo poder judiciário e pela mídia.

 

A gestão dos clubes, portanto, apenas espelha a sociedade em que estão inseridos. E talvez seja esse o maior desafio: mudar a cultura, dentro e fora dos campos.

 

Um ciclo virtuoso, que envolve bons jogadores, boas receitas para novas contratações, novos patrocinadores e o pagamento das dívidas, se inicia com a conquista de títulos.

 

Assim, apenas quem ainda não compreendeu que a razão de ser de um clube é ganhar no campo, e não ter uma renda de um jogo ou uma dívida quitada em dia, aplaude essas questões. balanço contábil positivo.

 

E eu não vou falar qual é o melhor modelo para a gestão de um clube de futebol no Brasil. Mas vou falar que sem título não se têm torcedores e sem torcedor não se consegue manter o clube, pois sem pessoas a apoiar o time, não se vendem cotas de patrocínio, não se têm receita de bilheteria nem de televisão.

Por Higor Maffei Bellini 

Pela legislação trabalhista brasileira, as férias suspendem a principal obrigação do contrato de trabalho, que é a prestação de serviços, pelo empregado, no caso o jogador de futebol.

 O atleta deixa de treinar, concentrar e jogar oficialmente, mantendo, contudo, o vínculo empregatício e a remuneração. Isso, porém, não significa que as demais obrigações do contrato “desaparecem” durante as férias.

O que se suspende é o dever de trabalhar. Não se suspendem os deveres acessórios do contrato, especialmente aqueles ligados à boa-fé, lealdade, zelo com a própria condição física e observância de cláusulas contratuais válidas. É exatamente aí que surgem as dúvidas mais comuns: pode andar de moto? Jogar partidas beneficentes, festivas ou de várzea?

A resposta jurídica é incômoda para muitos atletas: se o contrato proíbe determinadas condutas de risco, a vedação continua válida durante as férias. 

Isso porque não se trata de obrigação de trabalho, mas de uma obrigação de cuidado com o patrimônio físico do atleta, que é essencial à atividade profissional.

Isso significa que o atleta pode ser dispensado por justa causa se, durante as férias, descumprir essas cláusulas e se machucar? 

Em tese, sim, mas não automaticamente.

 A justa causa é a penalidade máxima do Direito do Trabalho e exige prova robusta de três elementos:

1. existência de cláusula válida e clara;

2. conduta culposa ou dolosa do atleta;

3. nexo entre a conduta e o prejuízo sofrido pelo clube.

Ou seja, não é o simples fato de andar de moto ou jogar uma pelada que gera a justa causa, mas o descumprimento consciente de uma regra contratual, com resultado lesivo relevante. 

Cada caso precisa ser analisado com cautela, sob pena de a dispensa ser revertida judicialmente.

E quem paga o tratamento em caso de lesão ocorrida nas férias? 

Aqui o ponto é ainda mais sensível. Em regra, se a lesão não tem nexo com o trabalho, o custo do tratamento não é do clube, pois não se trata de acidente de trabalho. 

O seguro obrigatório previsto na Lei Pelé e na Lei Geral do Esporte cobre eventos relacionados à atividade profissional, e não situações da vida privada do atleta.

Entretanto, a prática mostra zonas cinzentas. Há contratos que ampliam a cobertura médica, clubes que optam por custear o tratamento por estratégia esportiva ou até situações em que a lesão se agrava em razão de retorno antecipado ou falha no acompanhamento médico. 

Nessas hipóteses, a responsabilidade pode ser compartilhada ou rediscutida judicialmente.

No fim, as férias do jogador não são um “território sem lei”. 

Elas suspendem o trabalho, mas não suspendem o dever de cuidado, nem autorizam o atleta a agir como se o contrato não existisse. Para clubes e atletas, a lição é a mesma: cláusulas claras, comunicação transparente e bom senso ainda são os melhores instrumentos de prevenção de conflitos

Por Higor Maffei Bellini 

A crescente indignação dos torcedores, de diversos países, com os preços dos ingressos para a Copa do Mundo da FIFA 2026 é apenas mais um reflexo de um problema maior e persistente. Trata-se da elitização do futebol, que vem acontecendo em ritmo cada vez mais acelerado.

Como sempre afirmamos, a FIFA, ou qualquer outra entidade desportiva, precisa entender que quem faz o espetáculo acontecer é o público presente no estádio. Não aquele que acompanha pela televisão ou serviço de streaming. Eles são tão torcedores quanto os que foram às catracas de acesso ao estádio, mas que não se fazem presentes, não cantando e vibrando.  Não dando alma ao confronto das equipes.

Sem a presença do torcedor no estádio, o futebol perde sua alma, sua essência e seu propósito, que, também deve ser permitir que o trabalhador se desconecte de suas obrigações profissionais e se divirta.

Repararam que os jogos tradicionalmente eram marcados para as folgas dos trabalhadores da indústria? Isso mudou com a internacionalização que a televisão provocou, fazendo com que sejam marcados jogos para atender consumidores que estão em outros fusos horários.

As reclamações sobre os elevados valores das entradas para as partidas da Copa do Mundo de Seleções são válidas, são legítimas e vêm de todas as partes do mundo. 

Os valores cobrados, que em alguns casos ultrapassam os 4 mil dólares para um único bilhete, são inacessíveis para o trabalhador médio, aquele que durante décadas sustentou a paixão pelo futebol. 

E isso sem contar os custos adicionais: deslocamentos internacionais, hospedagem, alimentação e transporte interno nos três países-sede: Estados Unidos, Canadá e México.

Mesmo os torcedores que já vivem nesses países não estão isentos dessas dificuldades. Como a competição será realizada em três sedes diferentes, é bastante provável que o torcedor tenha de se deslocar entre cidades e países para acompanhar os jogos da sua seleção, o que multiplica os gastos e as barreiras logísticas.

Talvez, e apenas talvez, estejamos a ver um processo que muitos já sentem há anos: o futebol deixou de ser feito para o trabalhador.

O desporto, que durante décadas, para não usar séculos, foi o reflexo da cultura popular e das lutas sociais, parece estar cada vez mais voltado para as elites financeiras. Com preços proibitivos, o torcedor comum não consegue mais marcar presença nem nas arquibancadas do seu clube, quanto mais numa Copa do Mundo.

É possível que, dentro de uma ou duas gerações, as entidades desportivas venham a pagar um preço alto por esse distanciamento da sua base de apoio. A paixão que move o futebol vem da rua, da massa, da bancada popular e isso não pode ser esquecido. Mas vem sendo, infelizmente.

Um evento mundial como a Copa do Mundo deve garantir um mix de experiências e diferentes perfis de torcedores, mas esse equilíbrio não pode ser construído apenas com base na capacidade financeira dos mais abastados. 

Por isso os valores deveriam ser revistos, para baixo e assim permitir que aqueles com menores condições financeiras possam comprar o seu ingresso, irem aos jogos comerem seu lanche no estádio e se divertirem. Pois os mais abastados já estão garantidos.

O futebol precisa continuar a ser de todos e, sobretudo, para todos.

Por Higor Maffei Bellini 

 

A FIFA precisa, com urgência, compreender que o futebol mundial não vive uma realidade financeira homogênea e, sobretudo, que ela não é europeia. 

A lógica econômica que sustenta clubes, ligas e torcedores na Europa simplesmente não se replica no restante do planeta. Ainda assim, a entidade máxima do futebol insiste em organizar o calendário global como se todos vivessem sob o mesmo câmbio, os mesmos salários e as mesmas condições de deslocamento.

Organizar duas competições mundiais de clubes no mesmo ano já é, por si só, questionável, lembrando que os jogadores e times europeus reclamaram de ficarem sem férias para participar do que aconteceu no meio do ano. 

Fazer isso em países distintos, em continentes diferentes, com poucos meses de intervalo, beira o completo descolamento da realidade. Primeiro, um Mundial de Clubes nos Estados Unidos, no meio do ano. Em seguida, outro torneio no Catar. E a expectativa tácita parece ser a de que o torcedor acompanhe o seu clube em ambos.

Para o torcedor sul-americano, isso é simplesmente impossível. No caso brasileiro, a situação se agrava ainda mais. A final da Libertadores foi disputada há menos de 14 dias, em Lima. O custo para sair do Brasil e ir ao Peru já foi elevadíssimo, com passagens inflacionadas, hospedagem cara e gastos que ultrapassam facilmente o orçamento médio do torcedor. 

Exigir que esse mesmo torcedor tenha disponibilidade financeira e de tempo para viajar ao Catar menos de um mês depois é ignorar um dado básico: ele precisa trabalhar para pagar suas contas.

O torcedor brasileiro não pode se dar ao luxo de passar um mês em viagens internacionais para ver seu time jogar. 

E não por falta de paixão, mas por falta de condições materiais. 

O câmbio desfavorável faz com que qualquer deslocamento internacional custe, na prática, cinco ou seis vezes mais do que para um europeu. Uma única partida no estádio pode significar um gasto superior a um salário mínimo.

Talvez seja hora de a FIFA ser honesta. 

Esses mundiais de clubes não são pensados para que o torcedor do clube acompanhe o time fora de seu país. São produtos voltados à venda de direitos de transmissão, à ocupação de janelas comerciais e à expansão de mercados. O estádio, com a presença de torcedores, nesse contexto, torna-se quase um detalhe.

Assumir isso publicamente seria um primeiro passo. Porque fingir que o torcedor global pode consumir futebol como o europeu não fortalece o esporte, apenas evidencia o abismo entre quem organiza o espetáculo e quem, historicamente, sempre esteve nas arquibancadas.

Por Higor Maffei Bellini 

 

Quando falamos sobre assistir a um jogo de futebol, ou qualquer outro esporte, ao vivo, o preço do bilhete costuma ser o foco principal da conversa.

Mas, na realidade, esse é apenas um dos elementos que compõem o custo total de viver a experiência no estádio. E, por vezes, os fatores que rodeiam a entrada, como transporte e alimentação, tornam a ida ao jogo inviável, mesmo para os mais apaixonados.

Posso falar por experiência própria: já deixei de ir a jogos importantes, mesmo com o bilhete garantido, porque os custos paralelos eram simplesmente insustentáveis. Desde a final da Libertadores de 2025, em Lima, até um jogo do Paulista Feminino em Barueri, os preços do deslocamento ultrapassaram todos os limites do razoável, na minha visão e realidade financeira.

Para Lima, uma viagem que normalmente custaria cerca de R$ 2.500,00 estava a quase R$ 10.000,00 um valor quatro vezes superior ao habitual. Já para Barueri, um trajeto relativamente simples na região metropolitana de São Paulo, o Uber de ida chegou a custar R$ 150,00 quando geralmente gasto cerca de R$ 40,00

Nessas horas, o bom senso e o bolso têm de ser ouvidos. Quando o transporte custa mais que o próprio bilhete, torna-se claro que não estamos a falar apenas de paixão, mas de viabilidade.

E essa realidade afasta muitos torcedores dos estádios, não por falta de interesse, mas por falta de condições financeiras e até mesmo de tempo, para fazer essa viagem.

É por isso que clubes e entidades organizadoras precisam repensar a forma como estruturam os eventos.

Não é só o espetáculo em campo que conta. A equação que define a presença do público envolve o preço da entrada, o custo do transporte, a alimentação e, em muitos casos, até o estacionamento, com todos os seus adicionais como combustível, pedágio e desgaste do veículo.

Se o jogo for noutra cidade, noutro estado ou até noutro país, é fundamental considerar se o custo total da experiência permitirá casa cheia. Afinal, numa final de campeonato, muitas vezes, o mais importante é ver a torcida presente, para apoiar a equipe, bem como ficar bonito na televisão e não apenas a arrecadação.

Soluções existem. Parcerias com empresas de transporte, descontos em bilhetes combinados (jogo + deslocamento), campanhas com patrocinadores e até incentivos para o uso de transportes públicos podem fazer a diferença. O evento ganha, o torcedor agradece e o estádio fica cheio, como deve ser.

Porque, no fim das contas, o bilhete pode ser barato, mas se o resto for caro, o estádio continuará vazio.

Por Higor Maffei Bellini 

 

Os clubes esportivos, enquanto pessoas jurídicas, diferentemente das pessoas físicas, não enfrentam a realidade da morte ou da sucessão hereditária. Isso significa que, quando um clube adquire um imóvel próximo ao seu estádio, centro de treinamento ou sede social, esse bem tende a sair definitivamente do mercado, só retornando em situações excepcionais, como a extinção da entidade, a substituição por uma estrutura maior ou a dação em pagamento para quitação de dívidas.

Trata-se, portanto, de uma decisão que ultrapassa gerações e impacta diretamente o espaço urbano ao redor do clube.

Sob a ótica patrimonial, a compra desses imóveis pode atender a diferentes finalidades.

A mais evidente é a expansão física: criação de novas áreas de treinamento, ampliação de estacionamento, centros médicos, administrativos ou até de uso comercial.

Outra hipótese é a aquisição puramente como investimento, aproveitando oportunidades de mercado.

Some-se a isso a possibilidade de recebimento de imóveis por doação de sócios, torcedores ou dirigentes, o que também amplia o patrimônio imobiliário do clube sem desembolso direto.

A grande questão, contudo, reside na lógica de valorização e desvalorização desses bens ao longo do tempo.

Em um primeiro momento, obras de ampliação de estádios, centros de treinamento ou grandes intervenções urbanas podem gerar depreciação temporária dos imóveis do entorno: barulho, trânsito, restrições de acesso e perda momentânea de atratividade residencial ou comercial. Esse fator, muitas vezes, reduz os preços e abre uma janela estratégica para aquisição.

No médio e no longo prazo, porém, a tendência costuma ser de forte valorização, impulsionada exatamente pelas melhorias estruturais e pelas obras públicas destinadas a atender às demandas do clube e de sua torcida: novas vias de acesso, transporte público, reurbanização, iluminação, segurança e comércio.

Nesse contexto, o clube passa a ser também um agente indutor de valorização imobiliária, muitas vezes detentor de informações privilegiadas sobre projetos futuros, prazos e impactos, o que lhe confere uma posição estratégica nas negociações.

Por outro lado, quando o clube compra extensivamente os imóveis do entorno, ocorre a redução significativa da oferta disponível na região.

Isso altera a dinâmica do bairro, impacta moradores, encarece aluguéis e modifica o perfil socioeconômico da área. O clube deixa de ser apenas usuário daquele espaço urbano para se tornar um verdadeiro proprietário do território.

Assim, a compra de imóveis ao redor de suas estruturas não é apenas uma decisão esportiva ou administrativa, mas uma escolha patrimonial, econômica e urbanística, com reflexos duradouros para o clube e para a cidade.

O desafio está em equilibrar estratégia, transparência e responsabilidade social.

Por Higor Maffei Bellini 

Esta pergunta, à primeira vista simples, pode ser a chave para compreender uma mudança profunda no futebol moderno: a ascensão das SAFs (Sociedades Anônimas do Futebol) ou das SADs (Sociedades Anônimas Desportivas) e a crescente separação entre o "clube" e o "time".

Afinal, quando dizemos que torcemos para o clube, estamos a referir-nos a algo muito maior do que apenas os onze jogadores que entram em campo. Clube é estrutura, é história, é piscina, é salão de festas, é o futsal, o basquete, o voleibol. É a lanchonete onde os sócios se reúnem, é o campo onde crianças aprendem a amar o esporte. É o tecido vivo de uma comunidade.

Já o time é o espetáculo de fim de semana. É a emoção dos gols, as vitórias e derrotas, o campeonato. Para muitos, o que importa são as cores, o escudo e os resultados do time, sem querer saber do clube. Quem comanda o time, onde ele joga e se é uma empresa ou um grupo estrangeiro pouco importa para aqueles que apenas assistem às partidas. Desde que ganhe.

Este distanciamento entre clube e time pode ser precisamente o que permite a criação das SAFs: a venda de uma parte do clube, o futebol, a investidores externos, muitas vezes alheios à história, cultura e identidade da instituição. 

E o que é mais preocupante: essa venda raramente reverte em benefícios concretos para o clube social. Quantos clubes que venderam a sua SAF puderam reformar a sede, criar novas modalidades ou melhorar os serviços aos sócios?

Torcer para o clube é esperar que o ginásio esteja em boas condições, que a piscina seja limpa, que haja atividades para os filhos e netos, que o clube seja um espaço de convivência e pertença. É querer que o clube vença não só no futebol, mas em todas as frentes.

Torcer apenas para o time é limitar-se ao futebol, à tabela de classificação nos campeonatos, ao resultado do domingo. Muitas vezes sem saber sequer quem fundou aquele clube, ou o que representa para a sua comunidade.

É por isso que esta reflexão é tão urgente. 

Porque há quem continue a torcer por um clube que já não tem time, e há quem torça por um time que já não tem clube. 

E, no fundo, talvez isso explique o motivo de tantos defenderem que os clubes deixem de investir noutras modalidades ou atividades sociais para focar no futebol, no seu negócio principal. Para alguns, o clube devia ser apenas o time. Mas para quem cresceu a viver o clube no seu todo, esta visão é redutora e até dolorosa.

Infelizmente, com dor no coração, entendo que para alguns a criatura, no caso o time, se tornou maior que o criador, o clube social. Razão pela qual muitos defendem acabar com o criador, para que a criatura siga em frente, sem ter de ajudar a manter esse clube.

Eu não entendo que seja o correto. Não creio que, para o time existir, de maneira competitiva, seja necessário o clube ser abandonado ou extinto. Pois, se isso ocorrer, torcerão para uma empresa, que, como tal, visa apenas ao lucro financeiro e contábil e não ao título.

Sendo a conquista do campeonato apenas uma forma de alavancar o lucro pela exposição de mídia, pelo recebimento do prêmio, dos bônus dos patrocinadores, ou seja, um meio para atingir o lucro e não o objetivo principal.